
Eu e a irmã tínhamos milhares de brincadeiras só nossas.
Tínhamos apelidos para as pessoas, palavras que resumiam fatos inteiros e quando conversávamos, podíamos ter 20 pessoas ao lado que ninguém entenderia nada.
A irmã sem dúvida foi e vai ser por muito tempo, a alma que chegou mais próxima da minha, e por isso, ainda hoje é tão difícil aceitar que ela não está mais perto de mim, mesmo que fisicamente esteja.
Enfim...
Uma de nossas coisas ridículas de pré-adolescente era o Desenho do mercado.
De tempos em tempos, desenhávamos uma feira no Photoshop. Naquele tempo éramos a síntese do que se podia chamar de meninas populares, lembro que a irmã recebia cartas, declarações e nos divertíamos muito com isso, sempre.
No desenho do mercado, colocávamos em barraquinhas a cabeça de todos os meninos que gostavam de nós, para "vendê-los" colocávamos as pessoas que apoiavam que ficássemos com o indivíduo, e do lado de fora da barraca, quem não queria.
Era uma coisa ridícula, olhando assim, mas realmente nos divertíamos muito montando as barracas e mais divertido era falar depois: Vi o Sr. Cenoura hoje!
Não preciso dizer que nas barracas da minha irmã só existiam legumes japoneses.
Nas minhas sempre aparecia um ou outro de algum pobre coração nipônico que eu havia partido, e do lado de fora eu colocava o desenho da minha própria consciência, dizendo: "Allice, esse não!"
Lembro que num dos últimos desenhos que fizemos, e que agora está aqui, aberto na tela do computador, havia um menino de olhos puxados que eu ainda não conhecia.
"Irmã... quem é esse?"
"Ah, é um amigo do Sérgio, ele é bem legal, e bonitinho"
"Hum... e tu mesmas apóias ele... gostastes dele foi?"
"Sim, Allice"
"Irmããã... outro japonês? Sai dessa vida, e esse é feio, sério... Me põe do lado de fora dessa barraca que esse aqui eu não quero ele pra cunhado, não"
Ela, muito a contragosto, colocou do lado de fora dessa barraca a minha imagem, e dali alguns dias eu conheci o legume em questão.
Legal, sim... mas a irmã acabou não dando mais esperanças pra ele. E eu lembro como achei ele mariquinhas e panaca, quando eu o vi ir embora chorando.
É estranho lembrar desse dia.
Por que eu lembro tão nitidamente, de um fato que teoricamente não teria importância nenhuma na MINHA vida. Mas mudou ela pra sempre.
E se hoje eu pudesse refazer aquela montagem, com certeza não estaria do lado de fora da barraca, e sim dentro dela... Fazendo a melhor promoção possível pra ajudar a vender o legume japonês, que eu fui a responsável, em parte, pela eliminação.
Mas isso eu só entendi 6 anos depois... Mas antes disso, parte 4... A minha maior perda.